fbpx

Entrevista com Rebeca Gaspar: mulheres na arquitetura


Entrevista com Rebeca Gaspar: mulheres na arquitetura

As mulheres são a maioria entre os arquitetos e urbanistas brasileiros. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU) afirma que elas são maioria em todas as faixas etárias, menos acima de 60 anos, em que os arquitetos e urbanistas homens são 64% do total. Entretanto, apesar desse número considerável, ainda há pouca visibilidade para o trabalho de profissionais mulheres na profissão, segundo Rebeca Gaspar, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifametro.

 

“É problemático pensar que só no Ceará existem 1.622 profissionais mulheres, o que corresponde a 60% do total de profissionais ativos no CAU/CE, mas muitas estão invisíveis em cargos de liderança, presidência de entidades, premiações da área e no tocante ao reconhecimento financeiro a partir dos trabalhos prestados” – Rebeca Gaspar

 

Rebeca Gaspar, mestre em Arquitetura, compartilhou suas impressões sobre o cenário atual da profissão e ressaltou a importância das mulheres nessa área. Confira a entrevista:

 

Centro Universitário Fametro: Como foi a sua trajetória na arquitetura?

 

Rebeca Gaspar: Entrei na Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2007, quando ainda não tinha muita certeza do que se fazia em um curso de Arquitetura e Urbanismo. Provavelmente, foi esse desconhecimento inicial que me manteve por tanto tempo encantada com as descobertas da profissão. Fazer Arquitetura é ser apresentada a um mundo de possibilidade que permeia o ambiente construído e os espaços urbanos que habitamos. Tudo isso com os encantos dos desenhos a mão e também com os espantos dos recém-incorporados algoritmos computacionais aliados ao projeto de arquitetura. 

Fiz parte da Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (FENEA), onde entendi que o trabalho em rede é essencial em qualquer contexto, além de aliviar as frustrações que toda e qualquer graduação carrega. Essa atuação no movimento estudantil me levou, anos mais tarde, a atuar como conselheira, vice-presidente e coordenadora de comissões no Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU/CE) no triênio 2018 – 2020, bem como participar atualmente como Secretária Geral do Instituto de Arquitetos do Brasil departamento Ceará (IAB CE).

Depois de formada (2013), atuei no escritório Projec Arquitetura, onde aprendi a base dos processos de projeto, execução e acompanhamento de obras de médio e grande porte. Ainda hoje tenho contato com minha chefe, hoje amiga, e continuamos trocando figurinhas sobre nossas caminhadas profissionais. Em paralelo, me juntei com mais alguns amigos recém-formados para criar o escritório Ladrilho Urbanismo e Arquitetura, onde atuei como sócia fundadora até o ano passado. No Ladrilho, desenvolvi a segurança e a autonomia necessárias para captar clientes e liderar equipes de serviços, além de planejar, de maneira horizontalizada junto dos demais sócios, o foco do crescimento da empresa. 

Entre me formar e atuar no mercado, comecei a me envolver com a docência e, por esse motivo, iniciei em 2015 meu mestrado na Pontíficia Universidad Católica do Chile (PUC – Chile), em Santiago, onde morei até concluir meus estudos, em 2017. A docência me apareceu como complementação da renda, mas logo no início gostei do ambiente e da dinâmica de sala de aula. Dos cursos técnicos, passei aos cursos de ensino superior e hoje divido a sala de aula com a função de coordenação de curso.

 

Unifametro: Quais os principais desafios encontrados pelas arquitetas e urbanistas?

 

RG: Durante minha atuação na política profissional, foi quando me aproximei de maneira mais consistente das pautas relacionadas à necessidade de visibilizar o trabalho de arquitetas e urbanistas. Pensando no cenário nacional, é notório as inúmeras iniquidades quando falamos de desafios encontrados dentro da profissão. 

Penso que a melhor maneira de responder essa pergunta é apresentando o trabalho desenvolvido pela Comissão Temporária de Equidade de Gênero do CAU/BR. Em julho de 2020, a comissão apresentou o resultado do 1º Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo, que foi um questionário realizado on-line entre julho de 2019 e fevereiro de 2020, levantando algumas questões importantes para entendimento do cenário atual acerca da temática. 

O levantamento foi respondido por 987 profissionais, sendo 767 mulheres e 208 homens. A figura abaixo mostra os seis principais pontos de iniquidades entre homens e mulheres na arquitetura e urbanismo. Se percebe que os temas do assédio sexual, diferença salarial e o papel na criação dos filhos são, atualmente, os principais pontos de atenção no diagnóstico. 

 

Foto: reprodução/ CAU BR

 

Unifametro: Como você avalia o atual cenário da arquitetura para as mulheres?

 

RG: Acredito que essa pergunta complementa as informações dadas acima. Quero dizer que, para além do assédio e da desvalorização salarial dessas profissionais, ainda temos que lidar com algo que é a invisibilidade do trabalho realizado ao longo de anos por muitas arquitetas e urbanistas. É problemático pensar que só no Ceará existem 1.622 profissionais mulheres, o que corresponde a 60% do total de profissionais ativos no CAU/CE, mas que muitas estão invisíveis em cargos de liderança, presidência de entidades, premiações da área e no tocante ao reconhecimento financeiro a partir dos trabalhos prestados. 

Esse cenário se torna ainda mais visível quando se fala do ensino de arquitetura e urbanismo. As salas de aulas são repletas de alunas e de professoras, no entanto a bibliografia estudada e os projetos de referência tradicionalmente estudados ao longo de toda a graduação são de homens, na sua maioria, europeus e norte-americanos. Essa falta de representatividade acarreta numa narrativa que promove a figura masculina enquanto ator principal. A historiografia arquitetônica tem sido feita, contada e construída por homens. Nomes femininos foram apagados dos escritos por muitos anos e, se nada for feito, vão continuar sendo minimizados e apagados.

Os avanços são lentos e a prova disso é que apenas em 2020, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) elegeram as primeiras presidentes mulheres para os principais cargos de direção nacional das instituições. Na minha opinião, o cenário é de avanço, mas precisamos nos manter em estado de alerta para que nenhuma dessas conquistas seja minimizada. Assim como no cenário político nacional, o ambiente profissional é delicado e pode, a qualquer momento, sofrer investidas que atentem contra a equidade de gênero e raça.

 

Unifametro: Quais arquitetas e urbanistas são referências para você?

 

RG: São muitas as mulheres que gostaria de citar. Primeiro vou falar de profissionais de fora do Brasil, dentre elas: a americana Denise Scott Brown, a chilena Cazú Zegers e a japonesa Kazuyo Sejima. Quando se trata de Brasil, não poderia deixar de citar a ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, além da paisagista Rosa Klias e da carioca Carla Juaçaba. Pensando no cenário regional, vou aproveitar para citar uma gama de mulheres essenciais na minha formação e também para a construção da arquitetura cearense. As primeiras pessoas que tenho que citar aqui são as professoras que passaram pela minha formação, dentre elas Clarissa Sampaio, Alexia Brasil, Zilsa Santiago, Marcia Cavalcante e Camila Girão. Vou somar a essa lista algumas profissionais que encontrei ao longo da minha caminhada e que me influenciaram, e  ainda influenciam, a ser uma profissional melhor, dentre ela Nícia Paes, Rejane Santana, Claudia Sales, Erica Martins, Débora Lins, Cíntia Lins e tantas outras que não caberiam nessa resposta.

 

Arquitetura e Urbanismo Unifametro

 

Autorizado pelo Ministério da Educação (MEC), o curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifametro forma profissionais com sólido conhecimento científico e mercadológico. Os conhecimentos adquiridos pelos futuros egressos do curso, constituem-se em domínios como: o projeto, a organização e o gerenciamento de equipes para planejamento e outras atividades vitais no desenvolvimento socioeconômico do cenário cearense, brasileiro e mundial. Faça a sua inscrição aqui.